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Endividamento pode reduzir efeitos de liberação do FGTS, diz especialista

A liberação do saque das contas ativas e inativas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), anunciada ontem pelo Governo Federal, foi discutida na entrevista de hoje (25) do Conexão Sociedade. O programa teve a presença do economista e professor universitário, Antônio Carvalho, que falou sobre o tema.

O limite de saque, no primeiro ano, será de R$ 500 por conta, ou seja, há a possibilidade de o valor poder ser retirado de ambos os tipos. A adesão não é obrigatória e, caso alguém opte por realizar o saque nesta oportunidade, não poderá fazê-lo novamente pelos próximos dois anos, caso seja demitido sem justa causa. De acordo com o executivo Federal, a medida tem o objetivo de reanimar a economia do país e a limitação da quantia é justificada pelo fato de 81% das contas terem saldo igual ou superior a este valor, o que serviria para beneficiar a população mais carente.

Na avaliação do especialista, por causa disso, a liberação tem um público-alvo. “De maneira geral, isso vai estar direcionado ao público de menor renda. Para alguém que tem saldo de R$ 20 mil ou 30 mil, certamente, isso não vai interessar. Provavelmente, não irão acessar. E se você tem a possibilidade de desligamento em menos de dois anos, talvez não seja interessante também”, avaliou.

Perguntado se a liberação do saque poderia reanimar ou não a economia brasileira, o economista foi categórico em afirmar que a medida pode gerar impactos positivos, mas que os resultados poderiam ser menores por causa do grande endividamento da população. Ele atribuiu o problema à política de créditos aplicada no mercado.

“É muito agressiva, pois compramos uma camiseta e dividimos em 12 prestações, por exemplo, o que não acontece em nenhum país do mundo. Até as redes de supermercado que, até há pouco tempo, não parcelavam compras, hoje, algumas dividem em seis prestações, com uma taxa de juros de 7%. Então, é uma junção de muito crédito com juros altos. O juros de mora, por atraso, já é alto”, analisou.

“Cartões cobram de 15% e, mesmo que tenham diminuído no ano passado para uma média de 8%, ainda é maior que a taxa básica de juros ao ano do Brasil e que a média dos rendimentos das aplicações financeiras existentes no país. Você compra R$ 600 e acaba pagando R$ 820”, acrescentou.

Carvalho acredita que o cenário poderia ser diferente, caso o endividamento fosse menor e a movimentação econômica tivesse como foco o consumo. “O ideal seria que não tivéssemos dívidas e esse dinheiro fosse direcionado para o consumo porque, quando você consome, de fato aumenta a atividade econômica. Se eu compro mais, quem comercializa vende mais, vai comprar mais de quem produz e, logicamente, há uma grande possibilidade de geração de emprego e demanda de mão de obra tanto no setor do comércio quanto na indústria e na produção como um todo”, explicou.

“Dos 60/65% [dos endividados no país], você tem entre 20/25% que classificamos como superendividados, sem perspectiva e condições, a médio e longo prazo, de negociar aquilo. E não é só com pessoas de menor renda. São dívidas impagáveis que continuarão sem serem pagas”, concluiu.

Foto: Gênesis Freitas / Rádio Sociedade