Um grito silencioso ecoa na Fazenda Cassange, em Salvador. No local funciona o Instituto AGAPA, um santuário que acolhe mais de 400 cães e gatos resgatados das ruas, muitos deles doentes, idosos ou com deficiência. O abrigo é mantido quase exclusivamente por doações e pelo trabalho voluntário de dona Ângela Gomes, que há mais de 30 anos dedica a vida à proteção animal.
Atualmente, o Instituto cuida de quatro cães com deficiência e de dezenas de gatos em tratamento contra a esporotricose, doença grave que exige isolamento e cuidados rigorosos de higiene. Para garantir o mínimo de conforto aos animais, itens simples como papelão são essenciais, usados para forrar gaiolas, proteger do frio e manter a limpeza do espaço.
Segundo dona Ângela, ela costumava recolher papelão descartado por um supermercado no bairro de São Cristóvão, prática que ajudava diretamente na rotina do abrigo. No entanto, recentemente, a doação foi interrompida após decisão da gerência da unidade.
“O papelão não era para vender, era para os animais dormirem em cima. Sempre foi algo que ajudou muito a gente”, relata a protetora, que lamenta a mudança de postura da empresa, antes parceira da causa.
Sem apoio fixo, dona Angela afirma que vive de pedidos. “Minha vida é pedir: ração, estrutura, tudo. Mas é uma luta gratificante, porque ver um animal que estava condenado voltar a brincar não tem preço”, diz.
A interrupção da doação reacende um debate importante: até que ponto materiais que seriam descartados podem fazer a diferença na vida de centenas de animais abandonados? Para o Instituto Ágapa, cada pedaço de papelão representa dignidade, cuidado e a chance de um recomeço.